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TAMIRIS DUARTE – AS MULHERES PODEM TOCAR QUALQUER INSTRUMENTO QUE DESEJAREM

A cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, é por vezes considerada uma referência de música erudita. Mas também conta com diversos grupos e cantores de outros estilos musicais, atendendo a variados públicos que lotam seus bares, pubs, danceterias e casas de espetáculos.

Nessa bela cidade encontramos a gaúcha Tamiris Duarte, que começou sua carreira como contrabaixista aos 18 anos, através do convite de Oberdã Pires, produtor e radialista, para integrar grupo As Gurias, do qual fez parte durante sete anos. Antes ela já havia tocado estilos como reggae e rock anos 50, mas não profissionalmente.

Em 2017, Tamiris lançou seu primeiro CD, intitulado Até Aqui, gravado com o TAMIRIS DUARTE TRIO, e mais vários amigos de diferentes formações instrumentais. Esse trabalho dialoga com a pesquisa em ritmos tradicionais brasileiros que ela desenvolve no Mestrado da Unicamp, e está disponível em todas as plataformas digitais.

TMBX: Conte-nos um pouco de sua história musical.

TAMIRIS: Estudei baixo elétrico com Carla Kieling, teoria e violoncello no Conservatório Pablo Kómlos (da OSPA) durante dois anos; harmonia e improvisação com Davi Moreira. Cursei Bacharelado em Música Popular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, me formando pela primeira turma do curso, em 2015. Atualmente cursando Mestrado em Performance da Unicamp, em Campinas. Viajo bastante em função dos shows que faço acompanhando vários artistas, e também do meu trabalho com o grupo Três Marias e com meu Tamiris Duarte TRIO. Posso dizer que “moro” em Porto Alegre no momento, mas na prática não é tão simples assim(rsrsrsrs)

TMBX: Quais os principais trabalhos na área musical que fez e faz atualmente?

TAMIRIS: Atualmente meu trabalho musical é voltado para o segmento da cultura popular e nessa área atuo junto ao grupo Três Marias. Acompanho o Mestre Tião Carvalho, maranhense radicado em São Paulo, cantor, compositor, educador musical e líder comunitário no bairro do Butantã em São Paulo. Com Tião já toquei em várias cidades na região de São Paulo e também em São Luís do Maranhão. No sul tenho acompanhado regularmente a Clarissa Ferreira e a Paola Kirst, e faço parte da turma de artistas que frequenta a Pedra Redonda, a casa-estúdio do Wagner
Lagemann (também baixista!), na Zona Sul de Porto Alegre. Ali são proporcionados lindos encontros musicais como por exemplo, o Quintal da Pedra Redonda, um show que já aconteceu em 3 edições e reuniu vários músicos como Neuro Júnior, Pedro Borghetti, Paola Kirst, Kiai Grupo (Dionísio Souza, Marcelo Vaz e Lucas Fê), Fabrício Gambogi, Clarissa Ferreira, Zelito Ramos, Thiago Ramil, Gabriel Romano, o próprio Wagner, entre outros. Em breve estará nas redes um vídeo ao vivo de uma composição minha chamada No Agora, gravada nesse formato de junção de amigos musicais, no Organic Estúdio, em Rio Grande, cidade do Kiai Grupo. Além disso, trabalho como freelancer em Porto Alegre, São Paulo e Campinas.

TMBX: Como ser mulher-baixista num cenário essencialmente masculino? Acha que existe preconceito em relação às mulheres? Que desafios você enfrenta?

TAMIRIS: Desde sempre tive muito apoio da minha família e acredito que, aliado ao estudo com a Carla Kieling, esse fator foi crucial para a construção da solidez que sempre tive em relação ao meu potencial. É importante que se dê visibilidade às mulheres instrumentistas, para que as meninas mais novas cresçam tendo-as como referências e entendam que podem tocar qualquer instrumento que desejem. Qualquer um que diga o contrário é quem está equivocado sobre as capacidades de uma mulher. Felizmente já vejo uma mudança significativa no cenário em relação à época em que comecei a tocar. Quanto aos desafios que enfrento, os maiores ainda são com o pessoal da técnica de som.

Frequentemente o diálogo se torna muito difícil quando a pessoa com quem falamos tem como primeira opção duvidar do que dizemos, como se não soubéssemos do que estamos falando. Como situação emblemática e pontual, posso citar certa vez que o som do baixo não estava saindo no P.A. e eu, com o baixo “vestido” em mim, por um reflexo, tirei com um tapa a mão de um técnico de som que se achou no direito de invadir meu espaço e meu instrumento, mexendo nos potenciômetros, sem nenhum aviso prévio. Quantos amigos homens baixistas já passaram por essa situação? Até hoje não sei de nenhum.

Fotografia: Luiz Gustavo Guidolim

TMBX: Quais suas maiores influências na música?

TAMIRIS: Acredito que minhas maiores influências atuais são os músicos que estão ao meu redor. Eu aprendo muito tocando junto com as pessoas. Cada encontro é uma troca e sinto que saio uma outra baixista. Tenho muita sorte em conviver com grandes músicos e parceiros musicais. Se a gente estiver aberto e souber ouvir, todo mundo é professor. Entre os baixistas famosos que mais admiro estão Victor Wooten, Richard Bona e Marcus Miller. Tenho muita vontade de participar do Vix Camps, mas ainda não consegui, me alinho muito com a filosofia de aprendizagem
dele.

TMBX: Que habilidades um bom baixista deve desenvolver?

TAMIRIS: Acredito que a habilidade mais importante é o groove, a capacidade de sustentar o ritmo e fazer o povo dançar. Isso inclui uma noção de tempo muito firme, além de uma técnica boa de mão direita obtida na busca pelo som ideal. Cada estilo musical tem suas peculiaridades rítmicas para soar groovento e idiomático. Acredito que adquirimos a linguagem ouvindo muito, tocando muito e também entendendo o contexto social que existe por trás da história dos estilos musicais. Por exemplo, embora seja difícil de explicar com palavras, a condução do baixo de samba tem uma preguiça, um leve atrasadinho que faz toda a diferença no suingue; ao contrário do jazz que requer um pensamento quase que adiantado por parte do baixista para que soe característico. Assim também é com cada estilo musical.

TMBX: Como conciliar sua agenda de musicista com suas outras ocupações?

TAMIRIS: No momento a Música é a minha atividade quase que exclusiva porque, felizmente, o tema da pesquisa de mestrado é também a cultura popular, estilo com o que mais trabalho atualmente. O que ainda é um desafio é a produção, a gestão de carreira que eu mesma faço, assim como todos os músicos próximos a mim. Estamos em um tempo em que, além de dar conta de estudar o instrumento e estarmos em dia com os repertórios, somos responsáveis por divulgar, negociar e vender nosso trabalho. É necessário estarmos presentes e atualizados nas redes sociais.
Confesso que demorei um pouco pra me convencer disso, mas atualmente já acredito que isso faz parte do trabalho do músico.

Fotografia: Luiz Gustavo Guidolim

TMBX: O que você acha da iniciativa do ensino de contrabaixo online, como o ToqueMaisBaixo?

TAMIRIS: Eu acho que as iniciativas de ensino online são positivas por vários motivos. Vivemos em um tempo frenético, em que nenhum de nós tem tempo pra mais nada. Só por possibilitar a flexibilidade de horários e poupar o tempo do deslocamento (que é cada vez maior nas grandes cidades), as aulas online já são uma boa alternativa. Às vezes é o único jeito possível para se estudar música. Além disso, através da internet é possível estudar com uma pessoa que a gente admira, mesmo que ela esteja em outro estado ou país!

FOTOGRAFIA/CAPA: Luiz Gustavo Guidolim

 

Por Vilma Souza

Aluna e Colaboradora do ToqueMaisBaixo

 

Baixista, criador do ToqueMaisBaixo e empreendedor musical.

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