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RAPHAEL DU VALLE – “O GRANDE MESTRE ESTÁ DENTRO DE CADA SER HUMANO”

Segundo ele, sua missão há onze anos é entregar um conteúdo direto ao ponto, e que ajude de fato na evolução dos estudantes no contrabaixo. Compositor de mão cheia, Du Valle sempre acreditou em si mesmo, sem medo de mostrar seu som. Quando usava o MySpace em 2006, colocou na plataforma seu disco solo feito em casa mesmo.

Recebeu o seguinte comentário do grande baixista Marcus Miller: “Bom trabalho, Raphael. Seu som é excelente. Desejo-lhe o melhor com seu novo projeto. Se cuida!!” Para o Maestro Agenor Ribeiro Netto que rege três orquestras, das quais Du Valle participa, ele é “virtuoso e criativo. Seguramente está entre os três maiores contrabaixistas que conheci e convivi. Literalmente ‘quebra todas’ no groove”. Para os baixistas do site Toque Mais Baixo, Raphael é o mentor excelente, incansável, atencioso e paciente; sempre pronto a disponibilizar feedbacks com rapidez e eficiência.
Nesta entrevista, com perguntas feitas por alguns de seus alunos, confira quem é o Mestre Raphael Du Valle por ele mesmo!!

TMBX: PODE NOS CONTAR UM POUCO SOBRE SUA HISTÓRIA, ONDE NASCEU, ONDE MORA,ETC?
Raphael du Valle: Nasci em Ouro Fino (A terra do Menino da Porteira rs) sul de Minas de Gerais e moro em Poços de Caldas há mais de 15 anos.

TMBX: COMO COMEÇOU SUA CARREIRA MUSICAL?
Raphael du Valle: Comecei a tocar violão em 1989 e na mesma época comecei a tocar numa banda de primos. Tocávamos em quermesses e festas de igrejas. Sim, tocávamos na missa e depois íamos para a barraca da festa fazer o baile. Nessa época tinha por volta de 10 anos, e isso foi muito importante para minha formação musical. Nessa mesma banda tive contato com o contrabaixo. Meu primo, que era o baixista, desistiu de tocar e eu assumi o contrabaixo. Acidente bom este! E dá la pra cá nunca mais larguei. São 28 anos dedicados ao instrumento.

TMBX: QUAL O PRIMEIRO INSTRUMENTO QUE VOCÊ CHAMOU DE SEU?
Raphael du Valle: Meu primeiro baixo foi um Tonante vermelho. Pertencia ao meu primo, mais era como se fosse meu, afinal, só tínhamos ele na época. Depois tive um Giannini inteiriço que parecia um Alembic. Era um baixo bacana e nunca mais vi este baixo.

TMBX: CITE A PRIMEIRA MÚSICA QUE TOCOU COM CONFIANÇA E SENTIU QUE O CONTRABAIXO ERA SUA PRAIA.
Raphael du Valle: Olha, não lembro da primeira música. Me lembro que tocava muito sertanejo na época. Era o som da minha região. Leandro & Leonardo, Chitãozinho e todos os cantores dessa época. Toquei muito tempo estes estilos, foi uma época boa. Por incrível que pareça – mesmo estando distante deste estilo atualmente – o sertanejo é a minha raiz.

TMBX: COMO FOI SUA DECISÃO DE EMPREENDER MUITO CEDO, E SE DEDICAR COMO MÚSICO DE PROFISSÃO, AO MESMO TEMPO QUE NASCEU SUA FILHA E SE MUDOU
PARA POÇOS DE CALDAS?
Raphael du Valle: Bom, o empreendedorismo sempre esteve presente na minha vida, mesmo eu não sabendo na época. Meu primeiro negócio (rs) foi vendendo sorvetes em jogos de futebol. Depois vendi de pastel, brigadeiro até garrafas velhas. Sempre tive curiosidade por negócios e coisas diferentes, e principalmente em ter o meu dinheiro. Não precisava trabalhar se não quisesse, porém, eu gostava e gosto. Depois trabalhei em papelaria, oficina de geladeira, escritório de contabilidade, servente de pedreiro, chapeiro em uma cantina, auto peças e tudo isso, em paralelo a música.

Isso tudo antes um pouco de conhecer minha esposa Ethel e também da Lavinia nascer. Em 2001, quando Lavinia nasceu, estava trabalhando numa auto peças, tocando e dando aula de baixo. Senti que era o momento de ficar só com a música 100%! Foi uma intuição. E deu tudo certo. Pouco tempo depois fui convidado para lecionar no conservatório de Poços de Caldas e nos mudamos pra ca. Lecionei 2 anos e depois sai, pois era um contrato com tempo determinado.

TMBX: COMO SURGIU A IDEIA DE CRIAR O TOQUE MAIS BAIXO?
Raphael du Valle: Na época um amigo saxofonista (Ivan Meyer) me chamou pra gravar um disco com ele e nos ensaios tive contato com coisas que ele andava fazendo. O Ivan tinha um fórum que existe até hoje e também fazia boquilhas, métodos em PDF e ele me incentivou muito a criar um PDF. Voltei pra casa da gravação com isso martelando na cabeça e logo dei o start! Escrevi
um método e vendia em PDF. Usava o fórum e também orkut na época. Foi muito bacana e também o embrião do ToqueMaisBaixo. Na época o sonho era: Levar o ensino do contrabaixo para todos os cantos. Muitos estudantes aprendiam contrabaixo com guitarristas, pelo fato de não ter baixistas em suas cidades. Vi ali uma oportunidade.

TMBX: QUAIS FORAM SEUS PRINCIPAIS DESAFIOS?
Raphael du Valle: Primeiro a questão de infraestrutura. Na época a internet era bem precária e pouco se falava em videos. Também não tínhamos redes sociais (como temos hoje) e todas estas plataformas e tecnologias que nos ajudam demais. Outro desafio eram as crenças. O pessoal não acreditava que era possível aprender um instrumento à distância. Isso era 2006. Confesso que foram anos tentando mostrar que sim, era possível aprender qualquer coisa à distância.

TMBX: COMO É SER PROFESSOR NUMA ESCOLA ONLINE, JÁ QUE O YOUTUBE ESTÁ LOTADO DE VÍDEOS AULAS?
Raphael du Valle: Boa pergunta! O youtube é uma ótima plataforma e uso também pra me ajudar com meu negócio. Lá consigo mostrar meu modo de ensinar, minha didática e muitos alunos chegam no ToqueMaisBaixo através do Youtube. É possível aprender com ele, desde que tenha muito foco e encontre o material certo. O complicado justamente é encontrar um conteúdo passo a passo, com uma sequência.

Por isso que o ToqueMaisBaixo vem pra ajudar os alunos que querem esta sequência e também os feedbacks. No Youtube dificilmente o aluno será ouvido pelo autor do vídeo. Já no ToqueMaisBaixo isso acontece. Vejo essa plataforma mais como uma boa vitrine pra todos, e também acredito que todas as outras estão aí para somar.

TMBX: PODERIA NOS EXPLICAR COMO É GERAR CONTEÚDO, CONSEGUIR ESTUDAR PARA APRIMORAR CONHECIMENTOS, E AINDA CONCILIAR AS ATIVIDADES DIÁRIAS?
Raphael du Valle: Tudo é uma questão de gestão do tempo e de prioridades. Estou no comando do ToqueMaisBaixo, tenho uma banda e faço alguns free lancers. Além disso família, cachorros (tenho 4), esportes e lazer. O segredo é assumir menos compromissos por dia. Poucas tarefas e com isso você consegue fazer todas com qualidade. Não adianta nada ficar falando a famosa frase: “tô na correria!” Isso as vezes serve como desculpa para falar que é muito ocupado. O lance é definir prioridades e ir realizando com qualidade e eficiência.

TMBX: QUAL A SUA VISÃO DO CENÁRIO MUSICAL BRASILEIRO? ACREDITA QUE, DE FATO, HOUVE UM EMPOBRECIMENTO NA QUALIDADE DAS MÚSICAS BRASILEIRAS TOCADAS NAS RÁDIOS?
Raphael du Valle: A mídia sempre teve a premissa de vender. Todos os grandes meios vivem de publicidade. Infelizmente a música – nesse contexto – fica refém desses interesses. Cabe ao artista escolher se quer sacrificar a sua arte em detrimento da exposição ou não. Outro ponto importante é que ainda há música de qualidade no mundo todo. O que vejo cada dia mais são os nichos, as tribos. E existem outras questões bem profundas também. Cultural, social, educação e tudo que permeia uma sociedade. Teríamos que fazer um estudo profundo sobre este tema.

Por outro lado, estamos cada vez mais conectados e consumindo música de formas diferentes. Isso ajudou muitos os artistas que querem mostrar seu som. Não temos mais fronteiras e impedimentos para isso

TMBX: QUAL A IMPORTÂNCIA DO CONTRABAXISTA EM UMA ORQUESTRA?
Raphael du Valle: O contrabaixista, como qualquer outro músico, tem a sua importância. O importante é cada estar consciente do seu papel e executar da melhor forma possível. Os naipes de uma orquestra precisão soar como um corpo só. Exige ensaio e dedicação.

TMBX: ALÉM DE PRATICAR MÚSICA, COMO É SUA PREPARAÇÃO EM OUTRAS ÁREAS COMO: FÍSICA, EMOCIONAL E ESPIRITUAL?
Raphael du Valle: Cada dia mais tenho a certeza da interdependência das áreas na vida. Um músico precisa de um físico em dia, de uma mente saudável e por aí vai. Tudo está conectado e não podemos deixar isso de lado. Não tenho religião. Ao mesmo tempo, respeito todas e tento pegar o melhor de cada uma delas. Como diz o Dalai Lama: “Existe uma religião que veio antes de todas: A religião dos seres humanos.” Temos que entender que a raça humana é uma única espécie. Em nome de crenças e religiões muito se matou. Muita coisa ruim aconteceu e acontece. Esquecemos que estamos no mesmo barco e somos uma única família. Também poderia ficar falando horas sobre este tema.

TMBX: OS MESTRES SE FRUSTRAM COMO OS SERES NORMAIS? COMO LIDAR COM ISSO?
Raphael du Valle: Mestre? Quem? (rs). Como disse acima, estamos todos no mesmo barco em busca de evolução. O grande mestre está dentro de cada ser humano através de uma voz interna. Precisamos encontrar, ouvir e entender. Vivemos num mundo muito barulhento e cheio de estímulos e isso geralmente ofusca a nossa voz interior. Precisamos ficar mais em silêncio.

TMBX: O QUE TE MOTIVA DIANTE DOS INÚMEROS DESAFIOS NA PROFISSÃO DE MÚSICO, SEJA COMO INSTRUMENTISTA, SEJA COMO PROFESSOR?
Raphael du Valle: Acredito que toda profissão tem desafios. Não concordo muito com aquela reclamação da maioria dos músicos que dizem: “viver de música não é fácil”. Ser policial também não é fácil. Ser médico também não é fácil e por ai vai. Para se dar bem em qualquer profissão é preciso levar a sério, fazer a coisa certa e ter muito, muito foco. Não existe profissão sem desafio e não existe evolução sem desafios. Se o sujeito quer evoluir, e entende esta dinâmica, nunca mais irá reclamar das coisas e sim, irá encarar tudo como um processo de aprendizado.

TMBX: SUAS DICAS PARA QUEM QUER EMPREENDER NO ENSINO DE CONTRABAIXO ONLINE OU PRESENCIAL.
Raphael du Valle: Adoro falar disso! Sempre estimulei – ou pelo menos tentei – meus colegas a empreenderem, a montarem seus cursos. Agora, um ponto importante é: Não comece nada pensando no dinheiro. Não queira montar algo pra ficar rico. Comece um negócio que dê prazer. Primeiro encontre sua missão. Sem isso as chances de se dar bem são pequenas. Passei muitos anos sem ganhar um centavo com o ToqueMaisBaixo, e isso não me deixou parar, afinal, acreditava no projeto e me sentia bem com a missão. Então, se você vai dar aula online ou presencial, primeiramente, certifique-se que você gosta de dar aulas, de ajudar seus alunos, de entregar valor ao próximo. Isso fará toda diferença. Não adianta vir com sede ao pote querendo montar um curso online apenas para ganhar dinheiro. Não é assim que funciona.

Um projeto de sucesso precisa de processos. Precisa pensar a longo prazo, de um pós-venda e investir em tecnologias. Precisa de uma didática que se adeque ao seu público alvo e de foco. E um músico/empreendedor precisa acordar as 2 da manhã ou ir dormir as 2 da manhã se necessário for. Precisa responder uma pergunta de um aluno no domingo as 4 da tarde. Precisa resolver um BUG no site num sábado as 10 da noite por ai vai. Por isso, antes de tudo, encontre a sua paixão, invista tempo e se especialize.

 

Por Vilma Souza

Aluna e Colaboradora do ToqueMaisBaixo

Baixista, criador do ToqueMaisBaixo e empreendedor musical.

    3 Comentários

  1. Lucio alves
    dezembro 27, 2018

    Sem dúvida uma das entrevistas mais esperadas por todos os alunos do Tmbx o Raphael merece,grande músico e também um excelente professor!Parabéns Vilma por essa ótima entrevista.

    • Admin bar avatar
      Raphael du Valle
      dezembro 27, 2018

      Valeu meu querido!

    • Admin bar avatar
      Raphael du Valle
      dezembro 28, 2018

      Valeu meu querido! Tamo junto!

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