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CEGO LIVREMENTE – CONTRABAIXO E VOZ NA ESCURIDÃO

Casal de músicos deficientes visuais formam o Duo ‘A CORDA EM SI’ de voz e contrabaixo

Um casal que decide trilhar juntos o caminho da música não é nenhuma novidade. Mas o Duo ‘A Corda em Si’, nossos convidados mais que especiais, têm um diferencial: ambos são deficientes visuais. Músicos premiados, e de um bom humor totalmente contagiante, a dupla Fernanda e Mateus dividem conosco suas dificuldades e conquistas, de uma maneira cativante e inspiradora. Eles não nasceram cegos, mas desenvolveram a deficiência progressivamente. Da união, nasceu Francisco que não herdou o problema dos pais e já demonstra amor pela música. Confira como foi o nosso papo divertido e motivador, através do assessor Carlos Silva.

TMBX: Um pouquinho de suas biografias: nome, onde nasceu, etc.
DUO: Mateus Costa, contrabaixista, compositor, arranjador, nascido em Florianópolis. Estudou contrabaixo com Maria Helena Salomão e atua profissionalmente há 29 anos.

Fernanda Rosa nasceu em Porto Alegre, mora em Florianópolis há 20 anos. Atua há 13 anos como cantora profissional e estudou canto com Samira Hassan e oficinas com Izabel Padovani.

TMX: Como cada um começou na Música?
DUO: Fernanda – Acho que meu desejo de cantar veio da minha família. Minha avó também gostava de cantar, e chegou a participar de um programa de rádio, lá em Porto Alegre, onde a Elis Regina também cantou. Mas naquela época havia muito preconceito com a profissão de cantora e a família decidiu que ela deveria casar e ter filhos. Sempre ouvia minha mãe cantando, desde pequena, e a acompanhava nos corais que participou e acabei seguindo este gosto pelo cantar. Acredito estar, de certa forma, realizando o desejo de minha mãe e avó de cantar e viver da
música.
Mateus – Minha mãe era diretora de uma escola pública, e quando eu era bem pequeno a acompanhava em alguns eventos da escola. Lembro-me que, andando pelo pátio, passei em frente a uma caixa de som que devia ter três vezes a minha altura, meu corpo todo vibrou, vibrava meu peito, minhas mãos. Toquei vários instrumentos até encontrar o contrabaixo que vibrou novamente o meu corpo.

TMX: Como vocês se conheceram e decidiram trabalhar juntos?
DUO: Nós nos conhecemos no curso de Licenciatura em Música da Universidade do Estado de Santa Catarina, em 2007. Fazíamos uma disciplina juntos de Canto Coral. Mas por sermos deficientes visuais, um não sabia da presença do outro, até que uma amiga nos apresentou. Começamos a conversar, num primeiro momento, pela curiosidade de saber como o outro conseguia lidar com a profissão de músico e a deficiência visual – você lê partitura? Como você faz para carregar este instrumento enorme para tocar? Até que convidei o Mateus para fazer um som. E estamos desde então juntos com dois CDs gravados, um DVD e Francisco, um filho de 1 ano e 2 meses.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TMBX: Fernanda, como é a experiência de cantar com seu esposo, apenas com o contrabaixo acústico? E também sua experiência como intérprete em cameratas?
FERNANDA: Cantar com o contrabaixo é uma experiência bastante emocional pela força que a palavra ganha com o acompanhamento intenso e sensorial do grave. Ele faz vibrar o meu corpo, e quando canto o instrumento também vibra. E a música acontece por uma sintonia fina entre o contrabaixo e a voz. Ao mesmo tempo que há muita entrega e acolhimento há uma vertigem, pois nem um dos dois instrumentos é polifônico e nem temperado. É como andar em uma corda bamba, um se apoiando no outro por uma linha melódica. E trabalhar com o meu esposo é poder compartilhar o que mais amo fazer, com a pessoa que escolhi para estar ao meu lado. E é claro que isto afeta muito a nossa música!

E a experiência de tocar com uma orquestra de câmara foi bem pontual, foram dois convites feitos pela Camerata Florianópolis. Em um, inclusive, fizeram dois arranjos para duas músicas do A Corda em Si. Mais tarde, o Mateus arranjou outras duas composições nossas, e almejamos um dia voltar a tocar novamente com orquestra.

TMBX: Mateus, quais são as habilidades que o músico deve desenvolver para um repertório onde contenha somente a voz e um instrumento?

MATEUS: Um contrabaixo e uma voz não é bem uma novidade. Já foi bastante explorado no período barroco, onde uma melodia aguda era contraposta por um instrumento grave (violoncelo ou violone). Mas para quem quer se aventurar nesta sonoridade rarefeita tenho algumas dicas que recolhi, ao longo destes quase 10 anos de trabalho no A Corda em Si e que podem ajudar: a primeira eu aprendi com o pianista André Mehmari, que foi nosso diretor musical no CD Sinfonia Azul, temos que ser generosos com o ouvido das pessoas. Esta generosidade está relacionada à forma de conduzir e explicar a harmonia ao ouvinte, sendo que, na maioria das vezes, apenas duas notas estão soando. Além disso, precisa ter um bom conhecimento das técnicas tradicionais e expandidas do instrumento, conhecimento de harmonia, condução de vozes, contraponto de todas as espécies e estudo do gênero de música a ser tocado. Bastante paciência, porque não é qualquer cantor que vai topar esta proposta sonora. E muita imaginação para a elaboração dos arranjos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TMBX: Poderiam nos contar como é montado o show no escuro “Som do Vazio”? Como são feitos os preparativos? Qual o repertório?

DUO: O Som do Vazio é o nome que demos ao nosso primeiro CD gravado em 2010. O nome se refere a sonoridade rarefeita (sem preenchimento harmônico) da formação contrabaixo e voz. É um disco com repertório de releituras do cancioneiro brasileiro. Em 2014, lançamos o nosso segundo disco; Sinfonia Azul; e este só com as nossas composições. Este ano produzimos o nosso terceiro álbum o DVD Cego LivreMente.

O Show LivreMente é uma apresentação feita na total escuridão para que o público que vê possa estar na mesma condição de um cego, e a experiência de ambos seja semelhante. Ele acontece com áudio descrição ao vivo das ações no palco. Antes do show, adaptamos o teatro com a instalação do piso tátil – feito com a fixação de cordas no chão conduzindo a plateia até as cadeiras e palco -, vedação de luz de portas e janelas, um bate papo antes e depois do show, e distribuição de vendas para os olhos do público vidente. O repertório deste show traz composições novas, arranjos de músicas de compositores que admiramos, e algumas músicas que se destacaram do primeiro e segundo disco.

TMBX: Como descrevem a reação das pessoas após o show?

DUO: A formação baixo e voz é bastante intimista e ressalta muito a letra e os afetos da canção. É comum as pessoas chorarem, rirem muito, ainda mais em um show no escuro, em que não há a distração da imagem, e as emoções ficam à flor da pele. Não sabemos se todos gostaram do show pois quem não gostou não vem falar com a gente. Esta experiência só pode ser sentida por quem assistiu o show.

TMBX: Quais outros trabalhos já desenvolveram?

DUO: Nós já tocamos em vários trabalhos: o Mateus no Grupo Cravo-da-Terra, em várias orquestras de Santa Catarina, a Fernanda com bandas, com violonistas; mas atualmente o nosso ganha pão é o A Corda em Si. Além dos shows que produzimos, já gravamos em CDs de outros artistas, fizemos trilha sonora para cinema, desfile de moda, e parcerias com grupos de dança e teatro de sombras, além de lecionarmos workshops e oficinas.

TMBX: Quais são suas maiores influências musicais?

DUO: São tantos artistas e grupos que admiramos e que nos influenciam… Já ouvimos algumas pessoas dizerem que a nossa música lembra a sonoridade mineira (Flávio Venturini, Beto Guedes, Milton Nascimento). Além disto nossa música é inspirada em Maurício Maestro, Lenine, Chico Cesar, Mônica Salmaso, Elis Regina, e na música regional: chorinho, cirandas tradicionais, jongo e etc. Recomendamos a audição de alguns duos de baixo e voz que gostamos muito, como Izabel Padovani e Gringo Saggiorato, Vanessa Moreno e Fi Marostica, Música Nuda e Esperanza
Spalding.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TMBX: Além do Duo, vocês também têm outras atividades musicais. Poderiam nos contar sobre isto?

DUO: Nós lecionamos aulas particulares de canto e contrabaixo, além de workshops e oficinas.

TMBX: Na opinião de vocês, porque não há mais pessoas com deficiência atuando no cenário artístico?
DUO: Há muitas pessoas com deficiências visual atuando no cenário musical. Aqui em Florianópolis mesmo conhecemos três artistas cegos de alta qualidade profissional, mas que não estão na grande mídia. Além das dificuldades que já passam todos os artistas que se auto produzem, um deficiente visual precisa de ajuda para fazer uma simples foto ou vídeo, dirigir um carro, carregar o seu instrumento (ainda mais um contrabaixo acústico), imaginar cenário, figurino e iluminação do seu próprio show e ler um cartaz. Parece pouco, mas é uma barreira que enfrentamos no dia-
a-dia. Talvez isto justifique sermos poucos no mercado profissional.

Links para as páginas do Duo ‘A Corda em Si’:

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Instagram
www.instagram.com/acordaemsi
Canal Youtube
www.youtube.com/user/ACordaemSi

 

Vilma Souza

Aluna e Colaboradora do ToqueMaisBaixo

Baixista, criador do ToqueMaisBaixo e empreendedor musical.

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